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ENTREVISTA

 
O português Francisco José Viegas

Com um olhar crítico, e não menos apaixonado, sobre seu próprio país, o escritor, professor universitário e jornalista português Francisco José Viegas, é autor de diversos livros de poesia, de livros de viagem e de romances traduzidos para o alemão e o francês.

Através de romances de sucesso como Lourenço Marques e Longe de Manaus, Viegas leva seus leitores a grandes histórias policiais, aventuras, seja em Guiné, Angola, Portugal ou Brasil. Sempre acompanhado de seu protagonista, o detetive portuense Jaime Ramos.

No Brasil, onde tem livros publicados pelas editoras Record e Língua Geral, Viegas mantém forte relação afetiva. Já morou em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, além de ter viajado o país afora descobrindo e se encantando com os brasileiros.

A ENTREVISTA

Você é escritor e editor, vive cercado por livros. Como se dá a conciliação desses dois ofícios?

Francisco José Viegas - Já estou habituado a viver no meio de livros - no corredor, no quarto, no escritório... [risos] Não há conciliação possível entre o trabalho de editor e o trabalho de escritor. As pessoas perguntam: "Como é que você consegue conciliar?" Não, eu não consigo. São coisas diferentes. Ou seja, o trabalho de escritor é sempre feito à margem do trabalho de editor. Você como editor não é apenas um leitor. É leitor, mas tem que saber alguma coisa de gestão, de economia... É uma espécie de executivo que sabe ler. [risos] E, às vezes, um editor tem pouco tempo pra ler, há muitas coisas a tratar e o mercado do livro é complicado... Tem que estar sempre atento. Será que as livrarias têm os livros bem expostos? Será que o livro está bem distribuído? E, depois, como editor, é preciso também lidar com essa espécie terrível, que são os autores. [risos] Eu também sou autor, não é? Portanto, meu trabalho como autor é lutar contra o editor: furar o prazo, pedir mais percentagem de direitos... Completamente inconciliável. Lembro que os últimos romances foram escritos das 4 da manhã às 10 da manhã. Nesse período, levanto muito cedo e pela janela ouço ruídos dos bêbados que vão passando. Digo: "Se vocês vão para casa, vou começar a trabalhar." Depois visto a roupa de editor.

E o trabalho na revista Ler?

Viegas - A revista Ler foi fundada em 1987, já tem uma estrada feita. Não é uma revista literária, é uma revista de livros. Quer dizer, tem uma componente literária muito importante, mas é uma revista de livros. Sou diretor da Lerdesde 1989, depois estive oito anos fora da Ler, quando aproveitei para viajar e viver no Brasil. Agora estamos a fazer a Ler mensal, tem uma circulação de 10 mil exemplares, portanto pagos, que nos permite a continuar a publicá-la e pagar aos autores. A revista é o que tem a paixão da minha vida. Ela está viva, com saúde...

Você escreve contos, poemas, romances policiais... O processo de escrita também é diferenciado para cada gênero?

Viegas - Os processos criativos são sempre diferentes, não só de pessoa para pessoa. A mesma pessoa tem processos diferentes, escreve contos, poesia, teatro, roteiros de filme... Tudo gênero diferente, portanto o processo criativo é diferente. Poesia não tem processo criativo, tem exigência, rigor, muito trabalho, dedicação. Mas não tem necessariamente um processo que você possa dizer que levanta às 8 da manhã. Agora, escrever romance, novela, tem muito processo, trabalho, método. Eu prefiro trabalhar longos períodos. Me deito por volta da 9h30, 10h da noite. E às 3h30 eu acordo e começo a trabalhar às 4 da manhã, que é a hora do silêncio absoluto. A hora que as pessoas ainda não começaram a trabalhar e a hora que os bêbados já foram embora. Portanto, um certo silêncio na vida. Aí eu escrevo obrigatoriamente. Claro que não é todos os dias assim, imagina. Mas na fase final, de conclusão do livro, que demora três, quatro meses, eu faço isso. E isso obriga a uma certa constância, insistir a ter uma rotina, uma disciplina. Isso é bom porque normalmente os escritores são muito indisciplinados. É bom ter alguma disciplina, nem que seja o de fato de estar em frente ao computador e ter o que escrever.

Seu romance Lourenço Marques (2002) foi publicado no Brasil pela editora Língua Geral com outro título: A luz do Índico(2008). Por quê?

Viegas - Eu tinha publicado os romances policiais na Record. Os romances policiais têm uma lógica muito precisa, o detive é sempre o mesmo, chama-se Jaime Ramos, que acompanha todos os meus livros. Mas eu também tenho romances não policiais. E um deles era esse que foi publicado na Língua Geral com o nomeA luz do Índico por um motivo essencial. Em Portugal a edição tem o título de Lourenço Marques. No Brasil perguntariam o que é Lourenço Marques. Lourenço? Lourenço o quê? Lourenço Mutarelli? Ou Lorenço Santos? Não. Lourenço Marques é o nome da antiga capital colonial de Moçambique, hoje Maputo. Se eu publicasse [no Brasil] um livro chamado Lourenço Marquesas pessoas diriam que é nome tão feio. De fato não é um nome bonito. Eu achava que era melhor mudar o nome do título, mudar para A luz do índico. No fundo tem muito mais a ver com o próprio romance, que é sobre a luz do Índico, a saudade do Índico, de Moçambique. O livro foi publicado 30 anos depois da independência de Moçambique, passado esses 30 anos já era possível os portugueses falarem das colônias africanas com um certo desprendimento e uma certa liberdade também. Durante muito tempo não se podia falar disso, havia um complexo. Um complexo político da esquerda que impedia a falar como foi tinha sido agradável aquele tempo. E um complexo político da direita que nos impedia a falar como tinha sido terrível a guerra colonial, o colonialismo... O fato é que sempre vivi apaixonado, com muito interesse, sobre os portugueses que viveram a aventura em África. Sabe que Portugal é um país muito pequeno? Claro que sabe, no Brasil toda gente conta piada de português. Eu próprio coleciono piada de português... Sendo um país muito pequeno, e muito atrasado, Portugal recebeu em três meses quase um milhão de pessoas. E Portugal nessa altura tinha nove milhões. As pessoas vinham de África sem nada, sem dinheiro, muita gente sem roupa, pobre, abandonada... E passados 10/20 anos essas pessoas estão incorporadas na sociedade. Nem sempre foram bem recebidas, mas a sociedade absorveu essas pessoas. E essas pessoas foram muito importantes para a transformação para a vida em Portugal. Considero que há dois grandes momentos da revolução cultural em Portugal, depois de 1974. Primeiro a chegada dessas pessoas de África. Em Portugal, chama-se 'retornados', os que retornam a casa. Porque eles vieram e trouxeram novas formas de trabalhar, de lidar em sociedade... Eles viviam em África de uma forma muito mais aberta. E trouxeram uma nova forma de lidar com o corpo, os portugueses eram muito atávicos, fechados, com muito medo do corpo. E com outra comida, muito diferente. E chegaram com muita vontade de trabalhar, de refazer a vida. E muito da reforma econômica dos anos 70 e 80 foi feita com essa gente, que mudou Portugal. O segundo momento da revolução cultural em Portugal foi a chegada da imigração brasileira e das novelas brasileiras, quase simultâneas. Se você for ao interior de Portugal, descobre-se uma pequena vila, aldeia, restaurante chamado Gabriela. Ou um bordel chamado O Astro. O impacto das novelas brasileiras foi muito importante. Recordo que quando passou Gabriela aqui foi uma revolução, o país parava para ver como Gerusa ficava escandalizada com os amores da sua amiga quando toma um vinho... Tudo aquilo mexeu com a sociedade portuguesa. E trouxe uma nova visão de mundo. A imigração de brasileiros mudou muito, não só de dentistas... [risos] Eu tinha um medo horrível de dentista, eu sofria, vivia aterrorizado com a idéia de ir ao dentista. Descobri que havia uma dentista no fundo do bairro, que dizia: "Mostra o dentinho, vai..." [risos] Tem muitos brasileiros em Portugal a transformar o relacionamento das pessoas, o atendimento... São os melhores garçons nos restaurantes. Isso transformou muito a forma como nós, portugueses, lidamos com o serviço. A partir do momento que você tem um garçom brasileiro que atende maravilhosamente bem num café, bar, ou restaurante, você não quer mais o velho português que atende mal. Portugal só mudou ao longo da história graças às influências exteriores. Portugal só fez revoluções importantes lá fora. Dentro de Portugal tem que ser outros, os portugueses que vieram da África e os brasileiros.

E na literatura?

Viegas - Na literatura também. [risos] Eu acho.

Como está a literatura contemporânea portuguesa?

Viegas - Há um movimento que é herdeiro da literatura que se fazia aqui nos anos 60 e 70. E há um movimento, em ritmo diferente, que é inspirado na literatura americana, latino-americana, e também na literatura brasileira - esse é o mais criativo de todos. Um grupo de escritores que se preocupa com a qualidade dos personagens, com a qualidade dos diálogos, e  que acha que a literatura não serve para fazer política ou ensinar os outros a como fazer sexo... Não, não tem nada a ver. A literatura não tem uma função cívica, não tem uma função penal, não tem uma função pedagógica, nada... Esse é um movimento que estamos a assistir, e que eu defendo muito. Defendo muito essa ligação com a literatura brasileira. Escrevi um livro em que metade está escrito em ortografia portuguesa e metade em ortografia brasileira. Se passa no Brasil e tem personagens brasileiros, chama-se Longe de Manaus. Eles falam necessariamente com um tom diferente. Não posso colocar uma jovem paulista que mora em Higienópolis a falar da mesma maneira que um detetive português do Porto. É muito importante para muitos autores portugueses hoje a importância dos mestres de Língua Portuguesa. Em Portugal há sempre um nacionalismo literário muito pobre, querem defender o que é estritamente nosso, português, olhando para outras experiências da nossa língua com algum desdém. Isso aconteceu em relação à literatura brasileira, como acontece em certos casos da literatura africana. Acho que a literatura africana é muito fácil, tirando o Agualusa que é um dos grandes autores da nossa língua. Há o mito da literatura africana. Ou seja, sua importância política tem mais peso que sua qualidade literária. Isso é muito enganador. E acho que muitas pessoas só agora estão a descobrir o que eram os grandes clássicos da literatura brasileira: Machado, Lins, Veríssimo... E estão a descobrir os clássicos de hoje: Rubem Fonseca é um caso. Isso é muito importante para a forma como a literatura portuguesa vai evoluir.

Você morou dois anos no Brasil. Como sua literatura se relaciona com as cidades brasileiras?

Viegas - Vivi no Rio e em Salvador. E depois vivi um pouco a solta: Rio, São Paulo, Porto Alegre... Minha vida mudou também, quer dizer minha maneira de viver mudou: o corpo, a música, a comida... Mudou tudo. Na literatura, há de fato dois livros meus que têm uma relação muito tensa com o Brasil. Um deles, Longe de Manaus, tem cenários e personagens brasileiros, tem temática luso-brasileira. Manaus é uma espécie de lugar onde toda gente se perde e pouca gente se encontra, por isso estamos sempre longe de Manaus. Os portugueses também estão longe de Manaus. Na história portuguesa, Manaus foi uma cidade com uma história simpática. Era a cidade dos foragidos, se tinha problemas com a justiça ou com a Igreja fugia-se para Manaus. Foi um exemplo raro de tolerância, por exemplo, o bairro dos muçulmanos era muito próximo ao bairro dos judeus. Manaus era o lugar onde os foragidos se encontravam em liberdade. Embora o livro só uma parte se passe em Manaus, tem São Paulo, Luanda... Esse livro foi importante devido minha relação com a literatura brasileira. Tive um professor de literatura brasileira que era angolano... [risos] Esse professor foi muito importante, lembro da primeira aula na faculdade, aos 19/20 anos, cheio de certezas... Recordo a primeira frase do professor, ele disse, textualmente: "Eu peço muitas desculpas, mas a literatura brasileira é muito superior a portuguesa". Essa foi a primeira frase do curso. Imagina o escândalo das pessoas que estavam?! Habituadas: "Nós temos Eça, Camões, Camilo, Pessoa..." Ele disse num tom provocatório, e foi ótimo. Isso obrigou a muita gente, eu inclusive, a descobrir a literatura brasileira.

Por exemplo?

Viegas – Machado [de Assis]. Havia um racismo muito grande em relação ao Machado. Como se sabe, Eça [de Queiroz] era muito racista em relação ao Machado. Eça tem quase todos os pecados, ele era racista, machista... Ele era um homem muito fechado, provinciano. E ele nunca aceitou muito a concorrência do Machado. Na verdade, Machado tinha um humor absolutamente genial. Eça tinha medo desse humor. Por outro lado, Eça achava que Machado era apenas um mulato lá do outro lado do mar, do Brasil, onde havia macacos na rua, e araras... E isso era muito estranho para o Eça. E esse racismo nunca deixou o Eça responder as cartas do Machado. É engraçado como Machado é muito luminoso ao pé de Eça de Queiroz. Eça tem uma obra do erotismo, que é A relíquia. Mas obra prima do humor é Memórias póstumas [de Brás Cubas]. Nunca Eça conseguiu tratar o adultério com a leveza e a modernidade de Machado. Não é o caso Capitu. Nós dois continuamos a perguntar: "Capitu traiu ou não traiu?". A posição de Eça era muito mais reacionária. Eça condenava o adultério porque não concedia autonomia às mulheres. Ele assassinou uma das personagens mais fantásticas de toda literatura portuguesa, que é a Condessa de Gouvarinho, de Os Maias. Ela é de fato a grande personagem feminina da literatura portuguesa. Houve uma fase nos anos 50/60 que os autores brasileiros eram muito lidos em Portugal por razões políticas: Graciliano [Ramos], Jorge Amado, José Lins [do Rego]... Uma espécie de esquerda baiana, nordestina, que era muito prezada aqui. E ainda hoje essa geração desconhece tudo que se passa no eixo Rio-São Paulo, Porto Alegre... É muito difícil essa gente perceber que há autores absolutamente novos, inovadores, nessas geografias.

Fonte: SARAIVA conteúdo

 

 

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