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ENTREVISTA

LUC FERRY FALA DO CRISTIANISMO
 
por Marcos Guterman - O Estado de S.Paulo

     O desencantamento do mundo ocidental, em que a laicidade reina absoluta, pode facilitar a volta de "demônios do passado". Para Luc Ferry e Lucien Jerphagnon, a única forma de evitar a reedição de tragédias e de olhar o futuro com otimismo é reconhecer a herança religiosa cristã como parte indissociável da cultura europeia.

     Em debate na Sorbonne transformado no livro A Tentação do Cristianismo, que chega agora ao Brasil, os dois filósofos franceses mostram que não se pode dissociar a religião da cultura, como fazem os fundamentalistas, nem se pode entender a cultura sem pensar em religião, como querem os secularistas. A mensagem de Cristo revolucionou o mundo grego e romano ao unir as duas pontas, trazendo a fé para o plano da história. Deus encarnado em Cristo representou uma espécie de emancipação do homem, e a grande novidade do cristianismo - sua "tentação" - é o amor.

     Ao contrário dos gregos, que consideravam o amor uma impossibilidade diante do caráter transitório do homem em razão da morte, os cristãos deram-se ao luxo de amar sem moderação graças à promessa da ressurreição. "A mensagem do amor continua atual no cristianismo, e inclusive mais atual do que nunca", diz Luc Ferry em entrevista ao Sabático. Para ele, "além do ideal das Luzes, dos direitos do homem e da razão, uma segunda idade do humanismo está prestes a nascer".

     Para o sr., a sabedoria é condição da salvação, "provavelmente do medo da morte". Mas o medo da morte não estaria ligado justamente ao fato de que sabemos que iremos morrer?

     Evidente, mas a filosofia, desde sua origem na Grécia, não pretende apenas nos libertar do medo da morte, ela pretende nos "salvar" de todas as angústias que pesam sobre a vida humana. Quando somos tomados pela angústia, perdemos, na realidade, a liberdade de pensar, mas também nos tornamos egocêntricos. Fundamentalmente, a vida humana está cercada ou oprimida por três tipos de medo que nos impedem de ter uma vida boa, de encontrar a serenidade, a liberdade, a generosidade, a abertura para os outros. Em primeiro lugar, começando pelo mais superficial, há os medos sociais ou sociológicos: quando somos originários de um ambiente social modesto, nós os experimentamos fisicamente. Empalidecemos, enrubescemos, ficamos com a garganta seca quando precisamos fazer as apresentações em um jantar chique porque não nos sentimos à vontade, porque temos de falar em público e não estamos acostumados ou simplesmente porque encontramos uma personalidade que ocupa socialmente "um lugar de maior destaque" e ficamos embaraçados. Em seguida, estão os medos psíquicos, muito mais profundos, notadamente as famosas fobias de que fala Freud: quase todo mundo tem ou teve medo do escuro, e quantas pessoas na idade adulta ainda têm medo de aranhas, de ficar preso num elevador quebrado. Mas na verdade, por trás de todas essas angústias, há o terceiro medo, o grande medo, o que fascina os filósofos gregos: o medo da morte, evidentemente. Epíteto disse ao seu discípulo, em seu famoso Manual, que o filósofo "deve consagrar a ele todos os seus pensamentos". Isso mesmo: todos. Quanto a Lucrécio, no início do seu poema De natura rerum, declara também que é preciso começar vencendo o medo do Acheron, o rio do inferno, o que teremos de atravessar quando morrermos e, para tanto, os familiares colocaram moedas sobre os olhos do falecido para pagar o remador. É desse medo que a filosofia, originalmente, na Grécia, queria libertar os humanos - libertar não no sentido de acabar com ele, o que é impossível, mas no sentido de tentar transformá-lo pelo menos numa coisa positiva.

     O sr. afirma que, em dado momento, a razão, quando se trata da salvação, deve ceder o lugar à fé. Parece que até o genial Leonardo Da Vinci, descrito por Paul Valéry, também desistiu de encontrar a resposta no mundo físico. Existe um limite para a razão, superado apenas pela fé, como sugeriu Santo Tomás de Aquino? O sr. afirma também que a filosofia sempre foi a "secularização de uma religião". A filosofia seria então uma forma de espiritualidade sem ilusões e, portanto, "serviria" à fé?

     A verdade é que todas as grandes filosofias, sem nenhuma exceção, são antes de tudo "doutrinas da salvação", tentativas de definir a vida feliz, e eu acrescentaria inclusive que são doutrinas de salvação sem Deus. Por não privilegiarem a fé, ao contrário, opõem-se totalmente a ela. Contrariamente às grandes religiões, na realidade, a filosofia promete aos que querem consagrar-lhe a própria vida que poderão se salvar por conta própria e por meio da razão, enquanto as grandes religiões nos prometem que, com certeza, poderemos alcançar a salvação, mas mediante um Outro (mediante Deus, e não por nós mesmos) e mediante a fé (e não pela lucidez da razão). É aí que está, na minha opinião, a única verdadeira diferença entre filosofia e religião. O que significa salvar-se? Salvação, segundo os dicionários, pelo menos em francês, é "ser salvo de um grave perigo ou de uma grande infelicidade". De que grave perigo ou de que grande infelicidade filósofos como Epíteto ou Epicuro pretendiam ajudar os seus discípulos a se salvar? Resposta: a questão é, antes de mais nada, como dizia antes, salvar-se dos medos que ameaçam a nossa existência, que a cerceiam e, talvez melhor dizendo, a "encurralam". A ideia que move o desejo de sabedoria, a busca da serenidade é a convicção de que, enquanto formos encurralados pelos medos, será impossível para nós o acesso a uma vida boa, impossível chegarmos à serenidade, e, portanto, impossível termos uma mente livre, assim como é impossível abrir-nos aos outros, sermos generosos: quando temos medo, nós nos sentimos encurralados, ou seja, ao mesmo tempo não livres e fechados em nós mesmos. Para alcançar a serenidade, é preciso pois conseguir vencer os medos, e a filosofia, contrariamente aos grandes monoteísmos, nos promete que podemos alcançá-la com nossas próprias forças, pela razão, e não mediante um Outro e pela fé.

     De acordo com o seu ponto de vista, o amor cristão induz a pensar que Deus se retirou para deixar lugar aos homens. Será esta uma forma de emancipação humana?

     Uma grande filósofa cristã, Simone Weil, evoca a propósito do amor do ágape, que se supõe Deus experimentasse pelos homens, a famosa teoria judaica do Tsimtsum, da criação do mundo. Deus teria criado o mundo por amor, não por uma forma de superpotência, para declarar uma força infinita que transbordaria dele, por assim dizer, na criação dos homens e do universo, ao contrário, para permitir que existisse alguma coisa de exterior a ele. Deus teria deixado de ser para que houvesse o ser. É o ágape e, se refletirmos melhor, frequentemente é assim que nos comportamos com os nossos filhos. Às vezes, estamos dispostos a nos retirar para deixá-los em paz, ou, mais simplesmente contar uma experiência sem dúvida mais comum, a nos privar para dar a eles, economizar para que eles possam gastar.

     O cristianismo, analisa o sr., quebrou a hierarquia rígida do "mundo perfeito" grego, refletido na sociedade deles. Por outro lado, não é esse mesmo mundo cristão que criará sua aristocracia, com a ideia de uma divisão da sociedade feudal por estamentos (bellatores, oratores, laboratores)?

     Em primeiro lugar, não devemos confundir a mensagem de Jesus e o que a Igreja como instituição política fez dessa mensagem ao longo de toda a Idade Média - e mesmo ainda hoje. É possível imaginar, por exemplo, Jesus como torturador chefe na Inquisição? Voltemos à mensagem original, e principalmente à magnífica parábola dos talentos, que encontramos no Evangelho de Mateus e pode servir de fio condutor ideal para compreender o que a revolução judaico-cristã nos oferece ainda hoje no plano ético. É sem dúvida o texto mais simples, talvez também o mais profundo, que nos permite compreender perfeitamente a convulsão radical que o cristianismo, na esteira do judaísmo, instaurará em relação à moral aristocrática dos gregos. Ele conta, em resumo, a história de um senhor que, ao partir para uma viagem, confia três somas de dinheiro diferentes a três dos seus servos. Cinco talentos ao primeiro, dois ao segundo, um ao terceiro - a palavra talento (talenta em grego) designava moedas de prata, mas simbolizava também os dons naturais que recebemos ao nascer. Ao regressar ele quer a prestação de contas. O primeiro servo devolve dez talentos, o segundo quatro e o terceiro que teve medo e enterrou a moeda, devolve-a intacta, sem que a tenha feito frutificar. O patrão o escorraça insultando-o e, ao mesmo tempo, felicita-se em termos iguais com os outros dois. O que significa essa parábola? Em primeiro lugar, e antes de mais nada, o seguinte: ao contrário do que pretende a visão moral aristocrática, a dignidade de um ser não depende dos talentos que ele recebeu ao nascer, mas do que ele fez com esses talentos, não da natureza e dos dons naturais, mas da liberdade e da vontade, quaisquer que sejam as dotações iniciais. Evidentemente, existem entre nós desigualdades naturais. Seria inútil querer negar esse fato em nome de um igualitarismo mal compreendido. Nós não podemos interferir a esse respeito: alguns são de fato mais fortes, mais belos e mesmo mais inteligentes do que os outros. Quem pode negar que Einstein ou Newton eram mais inteligentes do que a média, do que uma criança com síndrome de Down? É um fato, assim como é um fato que o primeiro servo tem cinco talentos enquanto o segundo tem apenas dois. E então? O que isso importa no plano ético? Resposta cristã: nada. Porque o que importa é o que cada um fará com a soma. É o trabalho que valoriza o homem, e não a natureza. E é preciso compreender bem o alcance moral incomparável dessa simples afirmação. Em um universo ainda impregnado de ética aristocrática, ela representa um verdadeiro sismo, uma revolução de que precisamos estar a par. Ela introduz a ideia moderna de igualdade, mas mais ainda talvez, ela deve servir para fazer compreender aos nossos filhos que, apesar de todas as suas imperfeições, eles estão num mundo em que, apesar de tudo, aquele que trabalha realmente e que não cede ao medo acaba sempre sendo bem-sucedido. É essa definição naturalista e aristocrática da virtude que o cristianismo fará literalmente voar em pedaços. Sua argumentação é muito simples e encontraremos sua versão secularizada em todas as nossas doutrinas morais republicanas e humanistas, por exemplo, nas primeiras páginas dos Fundamentos da Metafísica dos Costumes, de Kant: certamente os talentos naturais - a inteligência, a força, a beleza, a memória, etc. - constituem qualidades. No entanto, nada têm a ver com a virtude. A prova disso é que basta refletir o fato de que todos os talentos e os dons naturais, e sem a menor exceção, podem ser colocados tanto ao serviço do bem quanto do mal.

     A promessa cristã da salvação, segundo o seu livro, quando cremos nela, é verdadeiramente superior à promessa da salvação filosófica, e esse seria o motivo pelo qual "o cristianismo venceu". Mas ele "venceu" afinal em que sentido?

     A vitória do cristianismo sobre a filosofia é evidente ao longo de toda a Idade Média: a filosofia será reduzida ao que chamamos de "escolástica", ou seja, ela praticamente deixará de ter o direito de se interessar pela questão da vida boa e da salvação, que se tornará monopólio absoluto da religião. A filosofia será reduzida a uma vulgar análise de conceitos, mas não será mais, como no tempo das grandes escolas gregas, um exercício concreto de aprendizagem da vida. Será preciso esperar o século 17 para que a filosofia retome aos poucos, principalmente graças a Espinoza, o projeto grego de definir a sabedoria e a vida bem-aventurada...

     Embora o sr. não seja um crente, admite que o Evangelho de João é o livro que levaria para uma ilha deserta. É uma rendição à "tentação do cristianismo"?

     É evidente que a mensagem do amor continua atual no cristianismo, e inclusive mais atual do que nunca. É ela que é, ousaria dizer, "tentadora". Porque é uma evidência que cega de tão óbvia, que atravessa e subverte continuamente nossa vida privada e no entanto, como se fôssemos tímidos, mal ousamos falar a seu respeito fora da intimidade: é o amor que dá sentido a nossa vida. Todo mundo sabe, todo mundo percebe. O que é menos evidente é que esse poder dos sentimentos nem sempre foi supremamente importante. Como mostro no meu último livro, Révolution de L"Amour, na verdade, ela está ligada a uma história ainda desconhecida: a da invenção, na Europa, do casamento por amor. Sob o efeito da passagem das uniões arranjadas para as uniões escolhidas, o ideal da paixão substituiu paulatinamente as fontes tradicionais de sentido e os antigos valores que foram sacrificados. Em termos filosóficos, o sagrado não é tanto o oposto do profano quanto aquilo pelo qual poderíamos nos sacrificar, dar a nossa vida. E, de fato, os ocidentais partiram para a guerra em nome da religião, da nação e da revolução. Mas quem gostaria ainda hoje em dia, pelo menos entre nós, de morrer por Deus, pela pátria ou pelo comunismo? Ninguém ou quase ninguém, felizmente. Mas, para os que amamos, estaríamos dispostos a tudo. Além do ideal das Luzes, dos direitos do homem e da razão, uma segunda idade do humanismo está prestes a nascer. Ela subverte a vida privada e a coletiva. Não é mais a glória do império, nem mesmo a da pátria que agora inspira a política moderna, mas uma questão totalmente diferente: a das gerações futuras, ou seja, dos nossos filhos, e do mundo que vamos querer deixar-lhes como herança.



 

 

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