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PORTUGUÊS E POESIA

A redação nota máxima

Clarissa Both Pinto foi a única a tirar o escore mais alto na UFRGS

Antes de pensar em estudar para o vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a jovem Clarissa Both Pinto, natural de São Francisco de Paula, já tinha um hábito curioso: ela mantinha um caderno de citações no qual registrava frases de autores nacionais e internacionais.

Esse caderno acabou sendo um forte aliado na hora da prova de redação da UFRGS deste ano. Dele, a vestibulanda retirou três citações que ajudaram sua redação a tirar a nota máxima no concurso, 25. Clarissa foi a única a conseguir “gabaritar” essa prova.

– Quando fui para casa naquele dia, acreditava que tinha feito uma boa redação. Mas uma nota assim, tão alta, jamais passou pela minha cabeça. Quando contei para minha professora, ela perguntou se eu tinha visto direito – conta a estudante, aprovada em Medicina, aos 20 anos.

Ir bem, de qualquer forma, não seria uma surpresa para ela. Desde que começou a estudar para o vestibular, nos últimos três anos, raramente deixou de escrever uma redação por semana. Ao mesmo tempo, leu dezenas de textos feitos por outros vestibulandos. Está aí um dos segredos que Clarissa não quer guardar, mas dividir com outros candidatos.

– A redação é uma prova lógica. Ela deve ser considerada uma disciplina igual as outras. É preciso estudá-la da mesma forma que matemática, física ou química. O estudo, no caso da redação, é produzir muitos textos e ir aperfeiçoando.

Entretanto, também é verdade que o esforço de Clarissa começou muito antes e, de certa forma, sem ser percebido. Trata-se de seu hábito de leitura. Para ela, está longe de ser uma obrigação, ler sempre foi um prazer. E, mesmo para uma vestibulanda, vai além das leituras obrigatórias da UFRGS. Seu gosto literário vai de Luis Fernando Verissimo a Franz Kafka.

 
Abaixo, a redação nota dez:
 

Um mundo de cegos

Já afirmava Claude Levi-Strauss que “o mundo começou sem o homem e poderá acabar sem ele”. Nessa perspectiva, a sociedade atual demonstra um paradoxo, visto que, apesar da tecnologia corroborar a capacidade técnica e intelectual do homem, continuamos cometendo infrações e incivilidades diariamente.

Lamentavelmente, muitas pessoas praticam incivilidades no cotidiano, as quais atestam o caráter egocêntrico do homem: ocupar assentos especiais em transportes coletivos, poluir o meio ambiente e não coletar as fezes de nosso animal de estimação são algumas das atitudes inconsequentes que manifestamos no dia a dia, as quais contribuem para uma realidade hostil e desagradável. Nesse sentido, a construção de uma sociedade sadia consiste em ter discernimento de que o espaço de nosso próximo começa onde termina o nosso espaço. Assim, quando prejudicamos o nosso entorno, estamos impedindo que a cooperação minimize as mazelas latentes da sociedade moderna.

As infrações que cometemos também prejudicam muito a construção de uma sociedade sadia: a sonegação de impostos é uma atitude tão condenável quanto o ato do político se valer das finanças públicas; a compra de produtos piratas engendra um tráfico que se conecta a tantos outros, como o tráfico de drogas e de armas, os quais aliciam desassistidos e vitimam inocentes; a ultrapassagem do sinal vermelho é uma infração grave, uma vez que recrudesce o trânsito violento que verificamos atualmente. Além disso, é imprescindível que mudemos o nosso “mundo particular”, porque tal mudança se reflete no “mundo coletivo”, do qual todos nós fazemos parte. Caso contrário, só confirmaremos o que Manuel Bandeira escreveu “a existência humana é uma aventura, de tal modo inconsequente”.

O escritor português José Saramago, em seu livro “Ensaio sobre a Cegueira”, descreve uma sociedade que, paulatinamente, se torna cega. Metáforas à parte, é exatamente isso o que acontece com nossa sociedade, já que ignoramos que, não só infrações, mas também incivilidades prejudicam a construção de uma sociedade sadia, pois abdicamos de atitudes abnegadas para sermos completamente egoístas, cegos. Portanto, o mundo só atenuará suas mazelas quando percebermos que tudo depende de esforços coletivos, ou, como Saramago registrou, “se podes olhar, vê; se podes ver, repara”.

(Fonte: caderno Vestibular de Zero Hora)

 

 

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