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PORTUGUÊS E POESIA

 

Erico e o vento intertextual da história

por Rodrigo Celente

     Ficção ou realidade, mentira ou verdade, eis a questão. A frase é um intertexto (referência a outro texto) parodiado ao clássico de Shakespeare Hamlet. Em todo o conjunto da obra de Erico Verissimo, nos deparamos com esse questionamento. E por quê? Talvez seja a familiaridade, o afinco e o estudo da história da nossa cidade, Estado e país.

                                                     erico


     Ninguém ousará duvidar que nas mais de mil páginas da trilogia O Tempo e o Vento encontram-se, a partir dos cenários construídos, fatos históricos passíveis de serem comprovados. Nos romances urbanos como Clarissa, O Resto é Silêncio e Um Lugar ao Sol, ambientados na Porto Alegre da década de 1930, em plena urbanização, sentimos, através das páginas, o pulsar da cidade. Nomes de ruas, locais públicos, indicações geográficas, tudo é reconhecível pelo leitor. Erico, de certa maneira, conhecia o seu público leitor. E construía suas narrativas com metáforas, discursos históricos, nomes, fatos, datas, espaços, e acontecimentos ditos reais. A intenção era dar ao leitor comum, ávido pelo entretenimento, o conhecido, aquilo que nos faz abrir o livro, espichar as pernas, ou enroscar-se numa poltrona e deleitar-se com a ficção e os mundos que ela nos apresenta, as impressões da vida real.

     Nas obras Clarissa, Música ao Longe e Caminhos Cruzados, o escritor usou, à maneira de Balzac, os mesmos personagens em histórias diferentes e incorporou recursos estilísticos da ficção inglesa e norte-americana – como a técnica do contraponto, que Aldous Huxley consagrara. A técnica criada por Huxley consiste em contar histórias paralelas, com idas e vindas temporais (recuos e avanços) que ora se tocam, se intercruzam até chegar num núcleo comum.

     A grande obra de Erico Verissimo, O Tempo e o Vento, a trilogia formada por O Continente, O Retrato e O Arquipélago, compõe um ciclo em que o escritor, usando a técnica do contraponto, apresenta as batalhas entre portugueses e espanhóis pela posse da terra nos tempos coloniais; as lutas separatistas, como a dos Farrapos; as disputas entre maragatos e florianistas, na época da Revolta da Armada, em 1893. Os fatos históricos, entremeados às histórias de uma família, tornam-se o pano de fundo dos personagens, da Colônia ao século 20. São vidas, lembranças dispersas. Não há, em principio, a preocupação com um personagem central.

     Em toda a obra, a história aparece interdita. Entremeada com situações ficcionais, tão verossímeis como o real. Ela é apenas o suporte, a base para a criação do artista. Manifesta-se como metáfora de uma outra história não conhecida. Num esquema geral da obra, o autor pretende destacar o progresso, a moral e os costumes, a economia, a sociedade, a história e a cultura, as guerras cada vez mais recorrentes, o luto e a vida áspera do campo. A história foi adaptada de suas leituras de L’Illustration, nos números dos anos 1909 a 1910 do Rio Grande do Sul, suplementada pelos artigos do Correio do Povo, quanto a datas e eventos históricos da virada do século.

     O Continente é dividido em seis episódios independentes, ligados entre si pela continuidade das gerações dos Terra-Cambará, participantes, de começo anônimos, dos movimentos sociais de formação do Rio Grande do Sul e do momento crítico da Revolução Federalista. A dicotomia violência/amor se faz presente a todo instante, alinhando a sociedade masculina ao lado do primeiro termo (Vento) e a feminina ao lado do segundo (Tempo). Pedro Missioneiro é o artista guerreiro e visionário, que ao lado de Ana, sensível, trabalhadora e prática, funcionam como mediadores desses universos. A história recontada dos sete povos das Missões, dos primeiros jesuítas, das disputas entre Espanha e Portugal, surge como parte integrante da narrativa de O Tempo e o Vento. Parte essencial, sem esta delimitação geográfica não se poderá entender a angústia da personagem e o início da trama, início em que Pedro Missioneiro, responsável pelo filão genealógico dos Terra, se apresenta.

     Em O Retrato, a ruptura dos laços familiares e a elaboração de um espaço público de discussão política constituem um tema fundamental. Do ponto de vista histórico, o pano de fundo é o governo Vargas. Em O Sobrado, temos a exploração dos múltiplos e cambiantes significados: útero, tradição, museu, fortaleza etc.

     Em O Arquipélago, as fontes de consulta são as revistas Problemas e Synthèse. Para compor o cenário dos primeiros anos de Getúlio Vargas, a fonte será o artigo Acuso! da revista Paulista. A Constituição de 1934 também é retomada pela revista Paulista. As demais leituras remetem principalmente a Aldous Huxley. A ficção de Verissimo recupera as lendas gauchescas e de Contos do Sul, de Simões Lopes Neto, e o já citado Contraponto, de Huxley.

     Em Incidente em Antares observa-se a mesma dualidade (história /literatura), apenas de forma mais demarcada. O vento alinhava simbolicamente momentos cruciais da narrativa, tanto os que reportam à realidade brasileira como os que dizem respeito ao imaginário e ao mundo carnavalizado dos mortos redivivos. A diferença entre as duas obras está em certo desequilíbrio entre a parte, por assim dizer, informativa, histórica, e a parte ficcional de Incidente. Nesta, a história é parodiada, sucumbe ao ficcional, ela como os mortos, personagens da narrativa, está morta. Apenas na primeira de Antares Erico traz a história da cidade com dados, espaços, nomes e locais, mas já altamente ficcionalizado. O texto do estrangeiro que chega na cidade, o francês Gaston Voyage Pittoresque au Sud du Brésil, é uma referência direta a Saint-Hilaire, até o título do tratado é o mesmo. Enfim, a própria história da cidade é apenas adereço no conjunto da narrativa, perdeu seu status de verdadeiro.

     Maria da Glória Bordini escreve em Incidente em Antares: a Falência do Maravilhoso que a greve descrita em Incidente tem por fonte uma foto que o autor encontra numa revista norte-americana. Esta foto, que o impressiona pelo que tem de simbólico, acaba por gerar a circunstância-germe do romance. A imagem mostrava 10 ou 12 féretros a jazer diante de um cemitério por causa de uma greve de coveiros. Ampliando a imagem para uma greve geral de operários de um pólo industrial de uma cidade interiorana, o autor passa a inquietar-se com o tema fantástico e com a concentração parodística que fará da história do Rio Grande do Sul e do Brasil, tratando o tema macabro numa perspectiva da estética do absurdo.

     Uma das fontes filosóficas para a montagem do personagem Martim Francisco é o O Homem Rebelde/O Mito de Sísifo, de Camus, de onde o autor retiraria o paradoxo da inutilidade da vida. A intertextualidade entre as suas obras também aparece em Incidente. O narrador do cortejo dos mortos-vivos, Lucas Faia, é um jornalista. O trecho em Incidente é narrado todo em terceira pessoa, com letra diferenciada, tal qual em Caderno de Pauta Simples, de Floriano Cambará, em O Tempo e o Vento.

     No caso da construção da crônica sobre a morte de Getúlio Vargas, o escritor usa como mediador o locutor do Repórter Esso, programa por demais conhecido de qualquer leitor brasileiro. Este locutor dirá: "Rio Urgente. O Presidente Getúlio Vargas acaba de suicidar-se com um tiro no coração, às oito horas e vinte cinco minutos em seus aposentos particulares do Palácio do Catete".

     Em uma passagem de O Tempo e o Vento, a filha de Licurgo e Alice, Aurora, nasce morta e é enterrada no porão. Alice teme os ratos. A mesma imagem Erico Verissimo irá colocar em Incidente em Antares (a cidade cheia de ratos após o tão esperado enterro de seus mortos) e que, por certo, também se pode buscar em outra narrativa de outro autor gaúcho, Os Ratos, de Dyonélio Machado.

    Diante do exposto, fica que o fato ficcional espelha um resgate das fontes históricas e dos testemunhos individuais. Suficientemente ambígua, a narração deste fato/acontecimento deve permitir uma releitura da vida, do cotidiano, a partir de posicionamentos estéticos /éticos. Dessa forma, Erico Verissimo soube mover-se entre estes dois universos de ficção e realidade. Escritor e cidadão participante, fez e é história com as Clarissas, os Vascos, os Rodrigos, as Anas, Bibianas, os Vacarianos, os Campolargos, os Cíceros e as terras sem fim.

 

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